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Um papo sobre crenças, dilemas, LGBTfobia e a importância do acolhimento familiar à população LGBTQIA+

29.06.2022 5 minutos de leitura

​Em uma sociedade que ainda reproduz casos de LGBTfobia e discriminação, esbarramos constantemente em diversas histórias de dificuldade nas relações familiares, violência e preconceito, mas também em histórias de acolhimento e transformação.

Nessa edição do Papo Com, editoria que faz parte do BMA Plural, tivemos o prazer de escutar uma dessas histórias, falando com Arley Magalhães, pastor em uma igreja evangélica e pai da Dayana Magalhães, integrante do BMA e Propagadora da Diversidade.

Ao longo do papo, Arley compartilhou quais foram os principais dilemas que enfrentou quando se deparou com a questão da orientação sexual da sua filha pela primeira vez e como eles transformaram a relação de pai e filha, de anos sem proximidade até chegar nesta etapa de acolhimento e parceira. Nossa integrante Maria Julia Medina, também Propagadora da Diversidade, conduziu o bate-papo.

O início: crenças, dilemas e padrões

"Eu fico feliz de estar aqui participando disso na vida de vocês e de outras pessoas...porque agora eu já tenho experiência, estou vivenciando isso...no início foi muito complicado, nós tivemos uma formação religiosa, eu sou membro da igreja e pastor." "(...) A Dayana se tornou evangélica primeiro que eu, ela e a mãe. Eu não queria muito no começo...mas acabei me convertendo".

Nesse momento, Arley compartilhou que estudou muito sobre a religião depois que se converteu, e que quando se falava em pessoas LGBTQIA+ nesse ambiente, era visto como algo muito ruim, com preconceito, "era como se estivesse falando do próprio diabo".

"Quando se trata desse assunto, ele é batido de forma tão pesada, que você fica preparado para se afastar de qualquer pessoa que possa se declarar ou ter uma aparência né, fora dos padrões estabelecidos...", relata.

"Eu mergulhei de cabeça... e para a gente foi um impacto muito grande, o processo da Dayana, mas eu tenho muita certeza de que para ela foi pior...Ela falava que não era uma opção, e eu não entendia... hoje eu tenho outro conhecimento e tive que abrir meu coração para Cristo me ensinar o que é amar".

Primeiros sentimentos

"... por incrível que pareça, é um sentimento horrível que não deveria acontecer. Nós ficamos preocupados, não com o que estava acontecendo com a cabeça dos nossos filhos, do ser humano...nós estávamos mais preocupados com o que as outras pessoas vão pensar... e isso é muito triste, muito difícil."

Arley contou que, nesse mesmo momento, a família mudou de cidade e Dayana passou a morar com uma tia em outo local. Nessa época, a irmã mais nova de Dayana foi diagnosticada com um problema de saúde, e a família atribuía parte da culpa pela doença à Dayana, por conta de sua orientação sexual. "Para mim, o que essa menina passou, e o ser humano que ela se tornou, isso é motivo de muito orgulho", ressaltou Arley enquanto relembrava a ocasião.

A luta da população LGBTQIA+ "é muito mais complexa, é muito mais profunda..., às vezes, a pessoa não tem nenhum apoio de quem deveria ter, dos pais...isso nós negamos à nossa filha e isso nos traz um arrependimento muito, muito grande, muito profundo".  "Eu não sabia o que fazer... você ia na igreja e escutava 'tem tudo que morrer', 'tem que ir para o inferno', e a gente começa a pensar 'Como vai ficar minha filha? Como a gente vai curar ela?'".

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Tentando passar por esse processo e compreender a filha, Arley relata que criou uma página falsa no Facebook, onde se passava por uma pessoa Lésbica, e entrou em vários grupos da comunidade, "para ver se eu entendia, e se eu podia de alguma forma ajudar minha filha", relembra.

"Nós lutamos com tudo o que a gente acreditava, como se fosse uma doença, e ao mesmo tempo, a gente não queria envolvimento da Dayana com as nossas filhas, porque acreditávamos que poderia contaminar... são coisas assim, que dá até vergonha de falar."

"Isso durou muito tempo...e aí surgiram algumas pessoas falando sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo", até que eu parei para pensar o seguinte, duas pessoas que são do mesmo sexo, se conhecem e vão viver juntos". Em muitos casos, essas pessoas são colocadas para fora de casa, e diversas situações exigem que essas pessoas amadureçam mais rápido.

"E aí as pessoas constroem uma vida toda junto, negócios... e aí um deles morre e quem fica com os bens seria a família que abandonou essa pessoa...nesse momento eu comecei a pensar que isso era desumano", destacou Arley.

Virada de chave, saúde mental e a importância de contar com uma rede de apoio

E, então, depois de muito tempo tentando compreender e lidar com os dilemas familiares e crenças, Arley teve uma virada de chave e deu um passo para se reaproximar de Dayana. Na conversa, Arley relembra a ocasião, Dayana iria na casa de uma tia pela primeira vez com a sua companheira Danielle. O pai lembra que quando Dayana o viu o local, levou um susto "deu tela preta, ela diz".

O encontro seguiu normalmente, até que Arley pediu a palavra... "'Eu só quero falar um negócio aqui, eu gostaria de pedir perdão para duas pessoas e falar que eu tenho o maior orgulho delas', aquele momento foi muito transformador, e eu pedi perdão de coração", releva Arley.

Ele conta que o ponto da virada de chave das suas crenças, vieses inconscientes e relação familiar foi quando entendeu que, "O amor vence barreiras, ele não cria muros, ele cria pontes".

Ao longo da conversa, Arley seguiu falando sobre a importância da rede de apoio, principalmente familiar, para a saúde mental das pessoas LGBTQIA+; "As vezes o pai bate, a sociedade bate, apanha no serviço...está cansado, é massacrado no ônibus, aí chega na igreja e escuta 'todo homossexual vai para o inferno'...e então a pessoa vai e pula de uma ponte, quantas pessoas já se suicidaram por isso? Porque a gente não consegue ter uma palavra de amor para quem precisa".

Na oportunidade, Arley contou que já aconselhou outro pai que estava em um processo parecido de dilemas, crenças e aceitação e felizmente também conseguiu ajudar a mudar essa história.

"Uma das coisas que eu mais me arrependo foi de não ter apoiado e não ter desfrutado também da grande mulher que minha filha estava se tornando e eu não conseguia entender", finaliza Arley.

Hoje, Arley e Dayana têm uma nova relação entre pai e filha, de parceira e acolhimento, e se sentiram à vontade para contar essa história real que pode inspirar outras histórias e ajudar pessoas que estejam em situações similares.