BMA Advogados
Artigos e Notícias

A importância de ações afirmativas para a inclusão racial no mercado jurídico brasileiro

08.09.2021 5 minutos de leitura

​Ter atitudes antirracistas e pensar o racismo estrutural da sociedade em que vivemos é tarefa de todos e que não deve se limitar ao mês ou Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. No mercado jurídico, algumas iniciativas como o programa Incluir Direito e a Aliança Jurídica pela Equidade Racial, das quais fazemos parte (leia mais sobre ambos os projetos aqui), possibilitam uma mudança gradual e constante nesse cenário. Para discutir a inclusão racial nos grandes escritórios de advocacia do país, convidamos Beatriz Soares de Mattos, Bianca da Costa e Lays Silva dos Santos, das áreas de Infraestrutura, Concorrencial e Proteção de Dados do BMA, respectivamente. 

Confira a entrevista abaixo:

BMA Plural: Quais são os principais desafios enfrentados pelos jovens negros para ingressar no mercado de trabalho jurídico?

Beatriz: Os desafios começam desde o ingresso na universidade. Lidar com o racismo no sistema acadêmico é lutar contra o senso comum que, apesar de ter a mesma formação, frequentando universidade pública ou particular de ponta, o jovem negro não é tão qualificado quanto o branco. Assim, enquanto a busca por boas notas é o suficiente para os alunos brancos acessar grandes escritórios, o negro deve transpor a barreira do preconceito, do racismo para, talvez, conseguir o mínimo. Além disso, é preciso criar uma rede de contatos inexistente, a partir do nada, a fim de que possa vir a concorrer por boas oportunidades. 

Bianca: O início da vida profissional é difícil, mas creio que acaba sendo ainda mais complicado quando olhamos para uma importante parte da população brasileira, que embora seja considerada a maioria, no Brasil não se vê representada em espaços de prestígio. Por vezes a sensação é de que, ainda que nos qualifiquemos ao máximo, a barreira por conta da cor da pele continuará muito marcante. Digo isso porque conheço muita gente capacitada profissionalmente que não consegue entrar no mercado de trabalho e, quando entra, não permanece porque esses espaços não se preparam para receber essa representação que tem suas especificidades e exigem demandas específicas. Dessa forma, eu entendo que o desafio para o ingresso, diante das questões sociais que estamos cansados de saber, é grande, mas permanecer, por vezes, é duas vezes mais desafiador.

Lays: A principal barreira tem a ver com o ensino superior. O mercado jurídico ainda é fechado e busca estudantes e profissionais provenientes de certas instituições de ensino com a crença de que estes candidatos serão melhores profissionais por causa de onde estudaram, perpetuando os perfis que já conhecemos. Selecionar o candidato pela faculdade traz à tona uma questão que vai além da racial, mas que caminha lado a lado: a de classe. Não é à toa que há pouquíssimos profissionais negros atuando no mercado jurídico, embora alunos e profissionais na área não sejam tão poucos hoje. Perdemos ótimos profissionais todos os dias quando miramos apenas onde a pessoa estudou, sem olhar sua experiência profissional, suas habilidades ou seu real desempenho na universidade, seja ela qual for, como já é feito fora do mercado jurídico. É preciso diversificar os procedimentos de recrutamento e seleção a fim de incluir perfis diferentes em locais tão padronizados. 

BMA Plural: Como projetos como o Incluir Direito impactam nesse cenário?

Beatriz: Dar oportunidade é tentar igualar as chances no ponto de partida. Projetos do gênero retiram parte dos muros que separam brancos e negros em nosso país, gerando maior chance de cada um escrever sua própria história.

Bianca: Projetos como o Incluir Direito impactam positivamente e representam o senso de mudança no ambiente jurídico. Seu objetivo é promover a igualdade racial dentro dos escritórios, formando e qualificando estudantes negros que não conseguem, por vias tradicionais, ao menos participar dos processos seletivos, já que somos excluídos desde o início por não preencher requisitos distantes da realidade social da maioria, como fluência em inglês, intercâmbio ou contatos, graças a problemas estruturais da sociedade brasileira. Se as coisas fossem diferentes, não estaríamos ocupando apenas 2% da presença em grandes bancas de advocacia.

Lays: Projetos como o Incluir Direito preparam jovens negros para introduzi-los no mercado jurídico, ajudando a diminuir as desigualdades que nos cercam. É importante que outros projetos como esse sejam implementados e que seu alcance seja aumentado para incluir, também, jovens negros que não tiveram acesso às universidades que participam hoje deste projeto. Assim, promoveremos ainda mais a inclusão.

BMA Plural: Qual é a importância de escritórios de advocacia terem iniciativas como o BMA Diversidade, que tem com um de seus objetivos contribuir para a mudança do cenário atual, fomentando a inclusão de profissionais negros no mercado jurídico?

Beatriz: Os negros pedem passagem. Um país não pode se tornar desenvolvido deixando mais da metade de sua população na miséria e sem qualquer mecanismo de superação das adversidades. Um escritório de advocacia sempre será incompleto, na medida em que não abre suas portas para visões diferentes de mundo que podem ajudar a construir uma visão mais completa sobre os casos. Diversidade e inclusão significam um atendimento mais completo para os clientes e para a administração da justiça no plano macro. Do ponto de vista do benefício para a comunidade negra, é fazer a economia girar em diversas partes da periferia, é dar a chance de todos em volta sonhar.

Bianca: É de extrema importância que grandes escritórios e companhias entendam o seu papel e o assumam com a finalidade de, efetivamente, transformar o cenário desigual que vivemos. Não dá para continuar agindo no dia a dia como se de fato vivêssemos um ambiente de plena igualdade de direitos e oportunidades. Inclusive, resta evidente em pesquisas que a ampliação da diversidade aumenta a produtividade, nada mais motivador que isso. Além disso, é de extrema importância que o trabalho não pare. Não basta permitir o ingresso, os grandes escritórios e companhias devem debater vieses inconscientes, estabelecer e acompanhar métricas de representatividade, promover uma agenda de inclusão em todas as áreas da empresa. Ressalto que o pleito da população negra é que tenhamos paridade nas oportunidades. Em suma, me sinto contente em fazer parte dessas iniciativas de mudança e de ter a oportunidade de trilhar um caminho que, infelizmente, ainda é raro.

Lays: Enquanto os negros representam mais da metade da população brasileira, essa realidade não está representada nos escritórios de advocacia, nem mesmo no corpo de estagiários. Iniciativas como o BMA Diversidade abrem portas para que essas barreiras sejam quebradas dia após dia, até que cheguemos ao momento em que os negros estejam devidamente integrados em todas as áreas da sociedade, principalmente o mercado jurídico, e que tais medidas específicas não sejam mais necessárias. Até lá, precisamos lutar por uma sociedade mais justa e igualitária principalmente para a maior parcela da população brasileira que vive, desde muito tempo, à margem.