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Datacenters e o setor elétrico brasileiro: os debates do "4º Energia em Transformação"

20.08.2026 8 minutos de leitura
Em resumo
A quarta edição do Energia em Transformação, promovida pelo BMA Advogados e pela RegE Consultoria, colocou os datacenters no centro do debate sobre o futuro do setor elétrico brasileiro. Em três painéis, especialistas apontaram que o Brasil reúne energia, terra e conectividade e já concentra cerca de 49% da capacidade instalada de datacenters da América Latina, mas identificaram a conexão à rede elétrica como o principal gargalo.

A quarta edição do "Energia em Transformação", o já tradicional evento anual promovido pelo BMA Advogados em parceria com a RegE Consultoria, chegou a sua quarta edição trazendo um tema atual para o centro do debate: os datacenters. O evento, que aconteceu na quinta-feira, 13 de agosto, no Rio de Janeiro, promoveu três painéis com objetivo de discutir os desafios e oportunidades para o setor elétrico com a implementação dos datacenters no Brasil. Essenciais na economia atual, que é superconectada e que utiliza cada vez mais recursos com uso de inteligência artificial, os datacenters surgem como alternativa para resolver o curtailment, mas também suscitam dúvidas sobre como será a sua integração ao sistema atual sem afetar a oferta para os consumidores.

Na abertura, Carlos Frederico Bingemer, sócio de Societário e M&A do BMA Advogados, resumiu a importância da discussão: enquanto a América Latina concentra hoje apenas 1,5% dos data centers do mundo, o mercado internacional mobiliza cifras bilionárias para o setor. No entanto, o Brasil lidera o mercado latino-americano e concentra cerca de 49% da capacidade instalada da região, despontando como grande mercado para este tipo de operação.

 

Modelos de Mercado: Caminhos para Viabilizar a Demanda Intensiva

O primeiro painel tratou dos "Modelos de Mercado: Caminhos para Viabilizar a Demanda Intensiva" e contou com moderação de Carlos Frederico Bingemer (sócio de Societário e M&A do BMA Advogados) e Tiago de Barros Correia (RegE Consultoria). Para discutir o tema, foram convidados Ana Paula Bacaltchuc (CFO, V2i Energias) , Felipe Calabria (Superintendente, SGM/ANEEL) e Sergio Brasil (CEO, Renova).

Carlos Frederico Bingemer começou o painel perguntando a Sergio Brasil sobre a estratégia da empresa ao criar um projeto de datacenter integrado com energia renovável, transformando o curtailment em estratégia de negócio. "Tínhamos um grande desafio regulatório e foi um processo muito interessante para a construção desse projeto. Observamos que tínhamos ali uma solução mitigatória ao colocar o datacenter, o consumo junto com a unidade de produção de energia", explicou.

"Tudo no datacenter é superlativo, e eles geram todo um ecossistema de serviços. E onde tem um datacenter vai outro e outro. Uma das críticas são feitas é sobre o uso de água, mas, se isso for bem trabalhado, é possível mitigar esses impactos", ponderou Tiago de Barros Correia. Sergio Brasil aproveitou a provocação para explicar que as tecnologias de refrigeração também estão se modernizando e se moldando para estas novas necessidades do mercado, para serem mais eficientes e consumirem menos água. "A competição nessa indústria é mundial. Temos o dever de casa para ser um país que vai pegar essa oportunidade, levar o Brasil pra frente dessa fila", completou.

Do lado do regulador, Felipe Calabria ponderou que, tecnicamente, o datacenter é, a princípio, uma carga como qualquer outra, e que o corte de energia não é um problema, mas uma consequência técnica de colocar mais geradores do que cabe na capacidade de escoamento. No fundo, Calabria resumiu: "estamos falando de uma disputa pela utilização da infraestrutura, por capacidade de conexão".

 

Desafios Legais, Regulatórios e de Planejamento

No segundo painel, "Desafios Legais, Regulatórios e de Planejamento", Bruna de Barros Correia (Sócia de Energia do BMA Advogados) e Natália Addas Porto (RegE Consultoria) receberam Alexandre Zucarato (Diretor de Planejamento, ONS), Lucas Guimarães (Gerente de Regulação e PDI, Argo) e Thiago Ivanoski (Diretor de Estudos Econômicos, Energéticos e Ambientais, EPE).

"Datacenter não é tudo igual. Existem diferenças grandes do ponto de vista de operação, seja do ponto de vista do consumo de água, se pode ou não ser flexível, que tipo de tecnologia ele usa, entre outras coisas", explicou Thiago Ivanoski, que contou que a EPE tem se aprofundado em estudos sobre o tema: "A gente não fala mais de dezenas de megawatts, agora é só giga". Em apenas quatro meses, o acompanhamento de carga somou 2 GW médios ao planejamento, o equivalente ao consumo de uma cidade de alguns milhões de habitantes. Dados do primeiro semestre de 2026 mostram que o país tem mais de 200 datacenters já em operação, com perspectiva de chegar a cerca de 500 empreendimentos nos próximos anos.

Por sua vez, Alexandre Zucarato resumiu a preocupação com o impacto dessas operações no sistema nacional. "A revolução tecnológica fez a geração estar num patamar e o consumo em outro. Nós perdemos a capacidade de coordenar a expansão de Geração e Transmissão como a gente fazia durante 120 anos", disse. Zucarato falou ainda sobre os incentivos aos datacenters, que são mais um elemento para o setor elétrico, que recebe a carga, mas tem uma rede que não está preparada para ela, ao menos não nessa velocidade. "O setor elétrico está mudando, se transformando. Estou presenciando isso como uma das maiores transformações setoriais", resumiu.

"O desafio é muito grande, conseguir espelhar, de fato, toda essa complexidade do mundo físico dentro do mundo contratual. Vimos o boom das energias renováveis, que já vieram com um timing muito mais rápido, e o datacenter vem mais rápido ainda. E uma das coisas que pode ser o gargalo é justamente o fio, a rede", completou Bruna de Barros Correia.

 

Datacenters, Sustentabilidade e Novos Investimentos

O terceiro painel tratou sobre "Datacenters, Sustentabilidade e Novos Investimentos" e contou com moderação de Carlos Frederico Bingemer (BMA Advogados) e Paulo de Barros Correia (RegE Consultoria), que receberam para a conversa Márcio Trannin (Vice-Presidente, Voltalia), Paulo Ubiratan (Gerente Jurídico, WEG) e Ricardo Dobelin (Arquiteto de Soluções Técnicas, IBM).

"O Brasil tem condições de atrair esses datacenters. É questão de saber aproveitar o momento. Não são condições perfeitas, mas temos condições. Temos energia, terra e conectividade. Qual é o grande gargalo hoje? A conexão à rede elétrica, tanto para o datacenter quanto para a geração", ponderou Márcio Trannin, que completou: "A demanda de datacenter para os próximos cinco anos é de 95 GW. É impossível que o Brasil não possa beliscar isso".

"Estruturalmente, estamos muito bem colocados no termo oferta de energia. O grande problema é quando você conecta os projetos, dado que a transmissão não é infinita. No entanto, esse é um problema que não é exclusivo do Brasil, e obras de transmissão levam tempo para serem feitas. É preciso planejar. Vejo os datacenters como uma oportunidade real de negócios", completou Trannin.

Ricardo Dobelin, por sua vez, lembrou da rápida evolução tecnológica desde o computador que ocupava uma sala inteira até as IAs que rodam dentro dos celulares pessoais. "Quando falamos em datacenters, pensamos que isso é para grandes empresas, mas quem usa isso somos todos nós. A inteligência artificial serve para muita coisa, mas ela tem valor quando eu conecto o business a ela. E para conectar negócios, preciso pensar em três palavras: sustentabilidade, performance e inovação. Inovação, sem governança gera desperdício. Sustentabilidade sem performance, não tem escala e performance sem eficiência pressiona a rede. Se estamos falando de uma inovação que usa um recurso que pode ser escasso, ter governança é fundamental", ressaltou.

No fim do evento, Bruna de Barros Correia resumiu: "Tivemos um dia com muita discussão importante, três painéis com excelentes palestrantes para entender todo o contexto e todos os desafios pra gente conseguir levar essa infraestrutura do datacenter para todo o país". Carlos Frederico Bingemer completou: "a mensagem que fica é que o Brasil tem uma oportunidade de ouro pra tentar capturar todos esses investimentos que mundialmente estão disponíveis para datacenters. Com o aumento da inteligência artificial e todas essas tecnologias que estão vindo para ficar, o datacenter vai ser a infraestrutura necessária para atrair cada vez mais investimentos".

 

Pontos principais

Qual foi o tema da quarta edição do "Energia em Transformação"?

A quarta edição do "Energia em Transformação", o já tradicional evento anual promovido pelo BMA Advogados em parceria com a RegE Consultoria, chegou a sua quarta edição trazendo um tema atual para o centro do debate: os datacenters. O evento, que aconteceu na quinta-feira, 13 de agosto, no Rio de Janeiro, promoveu três painéis com objetivo de discutir os desafios e oportunidades para o setor elétrico com a implementação dos datacenters no Brasil.

Qual é a posição do Brasil no mercado de datacenters da América Latina?

No entanto, o Brasil lidera o mercado latino-americano e concentra cerca de 49% da capacidade instalada da região, despontando como grande mercado para este tipo de operação.

Qual é o principal gargalo para a instalação de datacenters no Brasil?

Qual é o grande gargalo hoje? A conexão à rede elétrica, tanto para o datacenter quanto para a geração. E uma das coisas que pode ser o gargalo é justamente o fio, a rede.

Que projeções de demanda os datacenters devem gerar para o setor elétrico?

Em apenas quatro meses, o acompanhamento de carga somou 2 GW médios ao planejamento, o equivalente ao consumo de uma cidade de alguns milhões de habitantes. Dados do primeiro semestre de 2026 mostram que o país tem mais de 200 datacenters já em operação, com perspectiva de chegar a cerca de 500 empreendimentos nos próximos anos. 

Como o consumo de água pelos datacenters foi discutido no evento?

Uma das críticas são feitas é sobre o uso de água, mas, se isso for bem trabalhado, é possível mitigar esses impactos. Sergio Brasil aproveitou a provocação para explicar que as tecnologias de refrigeração também estão se modernizando e se moldando para estas novas necessidades do mercado, para serem mais eficientes e consumirem menos água.

 

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