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Gerenciamento de crise em tempos de coronavírus

03.07.2020 6 minutos de leitura

Nos últimos meses, o mundo vem vivenciando uma grande crise ocasionada pela rápida disseminação global da COVID-19. O que iniciou como um problema de saúde rapidamente se tornou uma questão humanitária, com impactos profundos na economia local e mundial.

Diante desse cenário, já é possível observar como a pandemia está contribuindo para um dano econômico significativo e de grande alcance em diversos ramos. As consequências e os desafios dessa nova realidade exigem que os líderes empresariais tenham um plano sólido de gerenciamento de crise.

Embora os negócios estejam em diferentes fases — de acordo com a região em que se encontram e os impactos que estão experimentando — existem alguns insights práticos fundamentais para quaisquer organizações que estejam sofrendo com essa situação crítica.

Para falar sobre como o gerenciamento de crise auxilia as empresas no enfrentamento dos riscos do novo coronavírus e do impacto que essa pandemia pode causar aos negócios, conversamos com os especialistas Gisela Sampaio da Cruz e Vitor Butruce, sócios da área de Pesquisa do BMA. Acompanhe!

Os impactos da crise do coronavírus nas empresas e as mudanças culturais e jurídicas

Desde o início da pandemia, muitos segmentos já foram seriamente impactados. Alguns, de forma mais rápida e direta, como o turismo — no qual está incluída a crise da aviação, que atinge as companhias aéreas — e o comércio, foram atingidos desde o início das ações de isolamento e quarentena.

O efeito imediato para quem não está conseguindo gerar um bom fluxo de caixa é não ter como manter os pagamentos em dia. Em relação a isso, Gisela Sampaio destaca o aumento da inadimplência como um grande impacto da crise — situação que pode vir a provocar um aumento nas solicitações de recuperações judiciais e falências em consequência dos problemas econômicos.

Contudo, mesmo grandes crises podem gerar consequências que não seriam exatamente negativas, mas sim mudanças de paradigma. É o caso das transformações relacionadas à força de trabalho. É inegável que o trabalho remoto está possibilitando que muitas companhias continuem produzindo.

Para Vitor Butruce, esse é um ponto de bastante destaque, pois a pandemia forçou uma mudança cultural que era esperada apenas dentro de alguns anos. Segundo ele, o serviço realizado em casa foi antecipado pela necessidade de uma adaptação da força de trabalho, que agora precisa operar à distância.

Isso também leva a mudanças jurídicas para acompanhar essas novas relações. Por isso, as empresas precisam estar atentas às novas orientações sobre a COVID-19 e as mudanças trabalhistas e tributárias que já estão surgindo em consequência deste momento.

Também podemos observar os impactos da COVID-19 nas arbitragens, com o uso de ferramentas tecnológicas pelo tribunal arbitral e o estabelecimento de novas regras procedimentais durante o período de restrições causadas pela pandemia.

Se essa tendência se consolidar no futuro, poderá evitar o gasto — de tempo e dinheiro — com deslocamento e, ainda, aumentará a produtividade de todo o setor. Como bem destaca Butruce, “o espírito do empresário deve ser sempre esse: a crise gera uma necessidade que, por sua vez, gera uma oportunidade”.

Sampaio acrescenta, como exemplo prático dessa mudança, o uso crescente da tecnologia nas instituições de ensino. “Muitas escolas ainda não estavam preparadas para ministrar aulas nessas plataformas, mas agora estão investindo nisso e oferecendo treinamento virtual aos professores”.

Confiança e boas práticas para realizar um gerenciamento de crise eficaz

Os impactos e mudanças causadas pela pandemia demonstram a importância de definir um plano de antecipação e prevenção de crises. Isso é o que diferencia as empresas que emergem mais fortes após adversidades das que hesitam e acabam fracassando. Existem algumas boas práticas de gestão que podem ajudar a empresa a ultrapassar este momento e, ainda, solidificar sua posição no mercado. Confira!

Adaptar-se às incertezas

Estamos vivenciando um momento com grande potencial transformador. As circunstâncias atuais demonstram a incerteza futura, e é nesse contexto que as organizações veem a necessidade de se adaptarem para conseguirem sobreviver. Segundo Butruce, "o momento atual é o de se adaptar às incertezas e não mais se adaptar à paralisação econômica".

Acompanhar fornecedores

Em um momento de recessão, muitas empresas se veem em dificuldades financeiras. Nesse sentido, um controle mais efetivo dos terceirizados pode evitar que eles descumpram algumas obrigações. Sampaio ressalta que "é importante acompanhar de perto os fornecedores para tentar antever algum movimento de descumprimento".

Utilizar as medidas oferecidas pelo governo

Em períodos de crise, é importante controlar os gastos com maior rigor para atenuar o impacto econômico. Uma boa saída é aproveitar as medidas que o governo colocou à disposição das empresas, como a redução da jornada de trabalho com redução proporcional de salário ou a suspensão temporária dos contratos. Isso pode fazer a diferença no equilíbrio financeiro do negócio.

Investir em tecnologia

Neste momento, as inovações tecnológicas se mostram ainda mais importantes, e as transformações ocorrem de maneira acelerada. Durante a pandemia, as dificuldades envolvidas no funcionamento presencial de algumas instituições demostram a urgência de as empresas investirem mais em tecnologia para garantirem seu funcionamento durante o isolamento social.

Renegociar contratos

Com a crise gerada pela pandemia da COVID-19, a demanda caiu e muitas empresas estão enfrentando dificuldades econômicas. Assim, existe uma necessidade real de definir novos prazos, ou mudar a forma e os valores de pagamento, para evitar um prejuízo muito grande para o negócio.

A renegociação de contratos é uma forma de evitar o descumprimento das obrigações. Sampaio destaca que "por ser um momento de muita incerteza quanto ao futuro, as circunstâncias precisam ser reavaliadas periodicamente para novas renegociações, caso necessárias".

Estratégias para sobreviver à crise

As dicas que oferecemos até agora são essenciais para um bom gerenciamento de crise, mas sem uma estratégia eficaz, podem se perder em meio ao cenário imprevisível da pandemia. Nesse sentido, existem algumas atitudes que, quando colocadas em prática, permitem que as empresas mobilizem melhor seus empregados e estabeleçam prioridades claras.

Capacidade de adaptação

Assim como ocorre na natureza, a capacidade de adaptação possibilita a sobrevivência também no meio empresarial. Por isso, as empresas precisam inovar e aprender novas formas de fazer negócios e de incorporar as mudanças na força de trabalho. Nesse sentido, Sampaio é categórica em afirmar que “a empresa que conseguir, nesse momento de incerteza enorme, se adaptar melhor é que vai deslanchar”.

Criatividade

“Toda crise traz oportunidade”, afirma Sampaio. Por isso, vemos empresas lançando mão da criatividade para manter seu negócio funcionando. É o que tem ocorrido com algumas confecções que enfrentavam uma baixa na produção e, vendo a busca por máscaras de pano, começaram produzi-las; assim como as lojas físicas que começaram a oferecer o serviço de e-commerce. É a criatividade aliada à adaptação.

Transparência e franqueza

Momentos de crise costumam exigir a adoção de medidas difíceis, que poderão impactar os colaboradores da empresa. Por isso, sempre que forem necessárias ações nesse sentido, é essencial prezar pela transparência e franqueza.

A maneira como a companhia enfrenta uma situação resulta na forma como ela será interpretada pela sua comunidade. Para Butruce "nessa fase de tanta incerteza, há uma natural dificuldade em identificar qual é o real estado das coisas, por isso, lidar com transparência e franqueza é uma característica muito apreciada".

Cuidado com as pessoas

Crises são uma grande fonte de estresse, ansiedade e preocupação. Por isso, uma das prioridades da empresa deve ser cuidar das pessoas que estão sob sua liderança, garantindo seu bem-estar físico e emocional. Ambientes de trabalho sadios aumentam a motivação e a produtividade.

Além disso, Sampaio ressalta que "quando as empresas têm cuidado com as pessoas, essas demonstram para o mercado que aquela organização é um lugar muito legal para trabalhar". Isso é ótimo para a reputação do negócio.

As mudanças estão ocorrendo de forma acelerada e podem exigir que as organizações alterem sua estratégia e planejamento. Essa é a oportunidade de cada líder compreender o que ele pode oferecer nesse momento. Por isso, a palavra-chave do gerenciamento de crise é adaptação. A empresa que conseguir inovar e se adaptar melhor é que vai se reerguer e prosseguir ainda mais forte e sustentável.

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Este conteúdo tem caráter meramente informativo. Em caso de questionamento jurídico sobre esse tema, entre em contato conosco.