As privatizações e investimentos em infraestrutura como instrumentos da retomada do crescimento econômico; assista
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O ano de 2020 tornou-se um divisor de águas antes mesmo de chegar ao fim. A pandemia provocada pelo coronavírus, que rapidamente disseminou a COVID-19 em todo o planeta, trouxe problemas sem precedentes para o mundo moderno. São questionamentos para os quais muitos ainda não têm resposta e efeitos que afetarão a sociedade como um todo por anos. Avaliar as perspectivas e desafios que aguardam investidores em um pós-pandemia, ou pelo menos em um momento de maior controle do vírus, é um exercício difícil, porém necessário. Apenas olhando as possibilidades podemos tentar traçar e percorrer os melhores caminhos.
Com o objetivo de provocar essas discussões, o escritório lançou o "BMA Debates – Cenários para Retomada", ciclo de encontros virtuais com foco em pensar na recuperação da economia após os efeitos da paralização de diversas atividades causada pela COVID-19. A primeira edição aconteceu na quarta-feira, 13/5, e tratou sobre "As privatizações e investimentos em infraestrutura como instrumentos da retomada do crescimento econômico". O webinar contou com a presença de Maria Silvia Bastos Marques, Chair of the Brazilian Advisory Board do Goldman Sachs Brazil, e Natália Marcassa, Secretária de Parcerias do Ministério da Infraestrutura. Representando o BMA, as sócias Ana Cândida de Mello, da área de Infraestrutura, Regulação e Assuntos Governamentais, e Camila Goldberg, de Mercados Financeiro e de Capitais, mediaram a conversa.
O início do ano mostrou o aquecimento do mercado de capitais e uma grande expectativa em torno de propostas econômicas da agenda liberal do atual governo. Para 2020, a nova rodada de privatizações era um dos projetos aguardados com entusiasmo por investidores. "Toda uma preocupação que vinha na esteira do projeto liberal do governo, isso tudo é engolido pelo momento, pela necessidade das medidas emergenciais, e isso mudou radicalmente o desenho desse programa de privatizações. Temos um paradoxo: ao mesmo tempo que essa mudança toda deixa evidente a necessidade de um redesenho desse programa, ela também trás muita incerteza para a economia como um todo e para os investidores", comentou Camila Goldberg na abertura do debate.
EXPECTATIVA E CRISE
Enquanto isso, do seu lado, o Ministério de Infraestrutura tem mostrado como está reagindo em meio a tanta adversidade. "Logo no início, tivemos várias medidas emergenciais mais práticas para garantir o abastecimento. A gente focou em garantir o abastecimento da população, além de estarmos funcionando junto com o Ministério da Saúde no transporte dos equipamentos", contou Natália. Ao passo que alguns setores estão sofrendo mais com a pandemia, como os setores aéreo e rodoviário, outros estão se beneficiando, muito por causa da capacidade do Ministério em editar medidas emergenciais com agilidade. "Ferrovia, por exemplo, está em alta. Como o volume de transporte nas ferrovias são principalmente de carga, minério e soja, com dólar favorável, a gente está em um cenário mais favorável para esse setor", exemplifica.
O governo mostra por meio do exemplo como está tratando cada um dos setores e tentando minimizar perdas. A expectativa é que o investidor, em especial o estrangeiro sem negócios no país, consiga manter a confiança em fazer negócios por aqui. No entanto, o cenário mundial instável talvez revele outro futuro. De acordo com Maria Silvia, o investidor deve ficar ainda mais cauteloso no mundo pós-pandemia. "Ao que tudo indica, teremos um mundo muito mais avesso ao risco. Infelizmente, a pandemia já nos atingiu com alto nível de desemprego, vindo de uma recessão muito forte, com baixa produtividade, o que de um lado só realça a premência de termos um programa muito bem estruturado de projetos de infraestrutura que vão gerar empregos. A aversão ao risco com a oportunidade de investimento em países desenvolvidos vai tornar muito mais difícil a atração de investidores estrangeiros. E se nós nos ativermos a investidores que já estão no país e a poupança doméstica, não será simples financiarmos esses projetos" ponderou.
COMO MITIGAR RISCOS
O risco ao embarcar em um novo projeto é inevitável, e em tempos de tanta imprevisibilidade, eles se tornam ainda maiores. De acordo com as palestrantes, o cenário se mostraria favorável, então, para que o BNDES se apresente como um sindicalizador dos bancos privados, já que atua nas duas pontas entre governo e investidores. "Todo projeto tem risco, é natural. A diferença que faz o projeto ter mais financiabilidade, ter mais atratividade, é como a gente aloca e endereça esses riscos. E o BNDES, até por atuar nas duas pontas, conhece muito bem isso. Acho que esse novo posicionamento do banco precisa evoluir na parte de garantias", explicou Natália. "No fundo, a gente está discutindo um problema que é uma estruturação melhor de projetos. Se a gente puder contar com uma estruturação melhor para esses projetos, a gente naturalmente teria projetos mais financiáveis, ou que pudessem facilitar essa discussão do risco x financiabilidade", pontuou Ana Candida.
O momento também se mostra propício para que discussões antigas, porém necessárias, saiam do papel. "A gente tem mais do que nunca uma oportunidade para fazer as reformas que precisa, como a Lei de debêntures, Saneamento, Lei Geral Ambiental, a nova Lei de Licitações... Acho que, mais do que nunca, a gente tem a urgência, o dever de fazer essas reformas que vão destravar investimento e trazer emprego sem a gente ter que gastar um real", apostou Natália. "A gente já tinha um déficit de infraestrutura que foi potencializado por essa crise, que potencializa a necessidade desses investimentos. Quando a gente tenta olhar pro futuro, imagina o que seria um desenvolvimento ideal desse pipeline, de modo a potencializar o impacto econômicos desses projetos para gerar uma retomada do crescimento", completou Ana Cândida.
"Tem uma coisa que não falamos aqui que é o seguro-garantia, que é um assunto que não anda no país. A nova Lei de Licitações é supertímida em relação a isso, Nós temos um mercado segurador importante no Brasil, muito a crescer, esse é um instrumento crucial para projetos de infraestrutura e simplesmente é um assunto que não se coloca. Ele poderia ser um excelente ponto para a retomada deste projeto com muito mais segurança e mitigação de risco", disse Maria Silvia, que ainda questiona: "Acho que a grande frase daqui pra frente é 'mitigação de riscos'. Como a gente consegue mitigar os riscos em um cenário que, se já era incerto, se torna mais incerto ainda?".
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Crédito da imagem: Camila Goldberg, Maria Silvia Bastos, Natalia Marcassa e Ana Cândida de Mello no webinar "BMA Debates - Cenários para Retomada" (da esquerda para direita, em sentido horário) / BMA