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Dia Internacional da Proteção de Dados tem bate-papo com especialistas

29.01.2021 5 minutos de leitura

O sócio da área de Proteção de Dados, Tecnologia e Negócios Digitais do BMA, Felipe Palhares, conduziu na tarde dessa quarta-feira, 28 de janeiro, o primeiro Papo Digital com o formato Mesa Redonda. Com o tema “O valor da privacidade e da proteção de dados”, o painel foi composto primordialmente por mulheres, profissionais renomadas do mercado digital e da indústria.

Aline Fachinetti (Privacy Specialist do Grupo Yamaha e Cofundadora da ONG Juventude Privada), Flavia Mitri (Diretora de Privacidade para América Latina da Uber) e Mariana Caparelli (Head of Data Protection e Legal Manager do Nubank), conversaram sobre o posicionamento, a evolução e o desenvolvimento do tema em suas respectivas companhias.

Entre os principais pontos da conversa, destacaram-se questões sobre a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) - que entrou em vigor em setembro de 2020 -, e sobre a condução das ações para impactar de forma prática na cultura organizacional.

Palhares expressou sua admiração às convidadas, que compartilharam suas experiências profissionais e os exemplos do dia a dia que podem servir de inspiração a outras empresas.

As lições aprendidas pela Uber

Flavia Mitri, da Uber, esclareceu que a organização é fundamentalmente uma empresa de dados, não de transporte e nem de delivery. Por isso, desde os seus primórdios, possui a preocupação em ser uma marca confiável, que consiga alavancar os resultados dos negócios no mercado, tendo migrado do foco em crescimento para o foco em processos.

A partir de um incidente de vazamento de dados em 2016, porém, a organização intensificou os cuidados para zelar não só por sua imagem, mas principalmente para reforçar seus princípios éticos em privacidade junto às pessoas. O fato, segundo Mitri, trouxe um intenso aprendizado, com lições poderosas sobre o assunto.

Nesse contexto, ela mencionou os esforços para explicar aos stakeholders internos a necessidade de manter um tratamento impecável dos dados, traduzidos na frase “faça a coisa certa com dados pessoais”. A especialista também comentou que a experiência da Uber foi pensada sob o princípio do “privacy by design”, para fornecer o máximo de transparência dos processos aos clientes e ajudar na consolidação das políticas internas e externas.

Estrutura, cultura organizacional e integração entre equipes

As atualizações recentes na legislação brasileira impulsionaram as empresas a aprofundar suas práticas para sensibilização e operacionalização da LGPD. Porém, para as companhias das convidadas, o tratamento para proteção dos dados e respeito à privacidade já eram uma pauta desde antes da entrada da lei em vigor, em setembro de 2020.

Segundo Mariana Caparelli, o Nubank “nasceu no digital” e, portanto, sempre se preocupou com o aspecto da proteção dos dados. Na opinião da especialista, o sucesso dessa iniciativa parte tanto da explicação dos conceitos básicos para todas as instâncias da empresa, quanto do envolvimento dos diversos times no assunto, inclusive o de negócios.

Aline Fachinetti falou sobre a necessidade de incorporar o tema enquanto mentalidade à cultura já existente nas empresas. Ela compartilhou sua experiência na Yamaha com a estruturação de um departamento específico, com processos claros e bem definidos, que ilustram a importância de ter uma governança sólida em privacidade. De acordo com ela, foi feito o esforço de trazer o assunto para a realidade da organização, criando-se o conceito de “guardiões dos dados”.

No Nubank, segundo Mariana Caparelli, ter uma estrutura pronta e uma integração com os outros times da empresa permitiu desenvolver uma visão mais ampla sobre as adequações necessárias e o impacto das ações no dia a dia.

Impacto da LGPD e relações com a sociedade

As convidadas explicaram a importância de disseminar o conhecimento sobre a LGPD, mas, principalmente, de ter os conceitos sobre a privacidade e a proteção de dados esclarecidos para além das “bolhas” das próprias empresas.

Nesse sentido, falaram sobre o aspecto da confiabilidade das marcas, princípio que impacta na maneira como elas se comunicam com seus públicos, e que representa a responsabilidade que elas têm de educar as pessoas sobre o tema. “Não se gera a consciência do direito da noite pro dia”, afirmou Flavia Mitri, da Uber.

Isso passa, segundo ela, pelas relações com a imprensa, no intuito de dirimir lacunas e/ou de vencer o sensacionalismo, esclarecendo com agilidade e consistência possíveis incidentes de vazamento de dados.

Tanto na companhia quanto no Nubank e na Yamaha, existe a preocupação de “pegar as pessoas pela mão”, ou seja, de responder prontamente a possíveis questionamentos sobre os diversos aspectos da LGPD ou da privacidade na prática. O banco digital, por exemplo, criou uma comunicação específica para as redes sociais na mesma ocasião em que publicou a política em seus canais de experiência do cliente.

Segundo as especialistas, a LGPD representa uma oportunidade às empresas de serem referências e de demonstrarem suas práticas, tanto quanto seus processos internos. Por outro lado, abre precedente para que os órgãos regulatórios observem mais de perto os contextos das organizações, sejam elas grandes ou pequenas.

“Quem não se adequar, vai perder negócios”

De acordo com as convidadas do webinar, a questão da privacidade e da proteção dos dados não pode ser tratada de forma isolada no campo jurídico. Assim, para ganharem o apoio de todas as áreas, segundo Mariana Caparelli (Nubank), as companhias devem mostrar o diferencial competitivo do tema e o valor para os resultados - inclusive financeiros.

Para Aline Fachinetti, da Yamaha, as empresas devem atuar menos “by the book” no compliance e olhar mais para as suas próprias realidades, desenvolvendo ações contundentes de ESG, que corroborem os esforços de privacidade e segurança dos dados.

Nesse sentido, Flavia Mitri (Uber) mencionou um exemplo de como a companhia procura minimizar riscos nas relações com fornecedores. A empresa realiza uma triagem para avaliar a segurança e solidez de seus parceiros, eliminando de sua relação comercial aquelas empresas que não demonstram compromisso com a proteção dos dados.

Este aspecto (do compromisso) e o da confiabilidade são alguns dos que podem abrir oportunidades de negócios às empresas. É por isso que, segundo as especialistas, as organizações precisam ter um órgão responsável que as ajude a navegar no período de incerteza, tanto no sentido das adequações à LGPD, quanto de dar um norte às discussões, garantindo uma agenda regulatória clara.

De acordo com as convidadas do webinar, fica clara a importância de promover uma reflexão profunda sobre o que é feito com os dados pessoais e de entender o que são eles, de modo a não comprometer a privacidade dos indivíduos no presente e no futuro.


Assista ao webinar na íntegra:

 


*Crédito da imagem: rawpixel.com/Freepik