Mulheres na propriedade industrial: desigualdade persiste, mas há evolução
A diversidade de gênero no âmbito da propriedade industrial representa um grande desafio para o cenário da inovação no Brasil e no mundo.
Em 1º de outubro de 2025, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) publicou o Anuário Estatístico de Propriedade Industrial de 20241 (“Anuário”), que reúne dados relevantes sobre o sistema brasileiro de propriedade industrial. Nesta edição, o Anuário inclui uma seção inédita dedicada à análise de gênero, que divulga a participação feminina em patentes, marcas, desenhos industriais e programas de computador.
Essa temática já vinha sendo estudada em nível global pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI): segundo seu relatório mais recente, The Global Gender Gap in Innovation and Creativity2 (“Relatório”), cerca de 23% dos pedidos de patente internacionais de 1999 a 2020 tiveram a participação de ao menos uma inventora mulher, enquanto quase 96% dos pedidos incluíram ao menos um inventor homem.3
Como resultado, as mulheres representam apenas 13% de todos os inventores listados, e apenas 4% dos pedidos analisados apresentam inventores exclusivamente mulheres, o que reforça a ainda limitada representação feminina na pesquisa e inovação.
Apesar disso, a participação das mulheres tem evoluído positivamente: nas últimas décadas, a proporção de pedidos internacionais com pelo menos uma inventora aumentou de menos de 20% em 2000 para 30% em 2020, e a proporção dos inventores listados que são mulheres subiu de 8% a 10% para 13% a 15% no mesmo período.
O Relatório da OMPI também projetou o ano de paridade de gênero no âmbito da proteção patentária em diferentes regiões: a América do Norte deverá ser a primeira região a atingir a paridade de gênero, por volta de 2055. Já a Ásia deverá atingir a paridade em 2056, enquanto a América Latina e o Caribe levarão mais tempo, concluindo o processo apenas em 2068.
Dentre os principais países depositantes de pedidos de patente internacionais no período de 2016 a 2020, um total de 22% dos inventores no Brasil são mulheres, e o país ocupa a 3ª posição4 com maior percentual de inventoras, atrás da Espanha e da Colômbia.
Os dados divulgados pelo INPI, por sua vez, analisam depositantes do tipo pessoa física residentes no Brasil, evidenciando a realidade doméstica e oferecendo um retrato regional da inovação, enquanto reforça os avanços observados em escala global.
Segundo o Anuário, 17% dos pedidos de patentes depositados no INPI em 2024 foram realizados por mulheres. Embora modesto, o índice representa um progresso em relação a 2015, quando a participação feminina não ultrapassava 12% dos depósitos.
As análises apontam o estado de São Paulo como líder em números absolutos e o Rio Grande do Norte como destaque em participação relativa, onde as mulheres foram responsáveis por 49% dos depósitos realizados.
Esse cenário demonstra que, embora a desigualdade de gênero ainda persista, há indicativos reais de avanço. Essa evolução é ainda mais expressiva em outros ativos: na última década, os depósitos femininos tiveram um crescimento de 616,6% em marcas e 563,2% em programas de computador, evidenciando uma maior inclusão em diferentes frentes do sistema de propriedade industrial.
O fortalecimento da presença feminina na ciência, tecnologia e inovação é essencial para impulsionar a criatividade, a competitividade e o impacto social das criações brasileiras. Assim, destaca-se a iniciativa do INPI em manter a divulgação periódica da perspectiva de gênero em suas estatísticas, o que permitirá acompanhar a evolução dos indicadores e fomentar ações para aumentar a diversidade no sistema de propriedade industrial brasileiro.
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NOTAS
1. Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Anuário Estatístico de Propriedade Industrial 2024. 7ª edição. Rio de Janeiro: INPI, Coordenação-Geral de Economia e Inovação, 2025. Disponível em:
2. WIPO Development Studies. The Global Gender Gap in Innovation and Creativity – An International Comparison of the Gender Gap in Global Patenting over Two Decades, 2023. Disponível em:
3. O indicador utilizado pelo Relatório considera a presença de pelo menos uma mulher inventora (e, separadamente, de pelo menos um homem inventor) em cada pedido analisado.
4. Embora o Brasil apresente elevada participação feminina entre inventores, as projeções de paridade de gênero baseiam-se na taxa de crescimento dessa participação, e não apenas no valor absoluto atual. Assim, estima-se que a América do Norte alcance a paridade antes, em razão de seu ritmo de crescimento mais acelerado.