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Panorama concorrencial: a visão do CADE sobre o setor e os desafios à frente

BMA Review Agronegócio 27.11.2020 3 minutos de leitura

Em fevereiro de 2020, o Departamento de Estudos Econômicos (DEE) do CADE editou novo documento da sua série de estudos “Cadernos do CADE”, intitulado “Mercado de Insumos Agrícolas”. O documento apresenta análise extensa e altamente detalhada sobre a experiência do CADE na análise dos mercados de sementes, defensivos agrícolas, fertilizantes e máquinas & equipamentos agrícolas. O documento ressalta a importância desses mercados para a economia brasileira, e indica características a exigirem constante atenção da autoridade concorrencial: o alto número de operações de concentração; a complexidade desses mercados; e o caminho de sua evolução tecnológica.

Uma das conclusões mais importantes desse trabalho do DEE coloca em evidência as complementariedades tecnológicas que existem entre esses mercados. Originada no aperfeiçoamento da proteção legal às inovações (especialmente biotecnológicas), essa complementariedade envolvia os elos de biotecnologia, sementes e defensivos agrícolas, que passaram a se desenvolver de forma paralela e, de certa forma, combinada. Para além das preocupações tradicionais com concentração horizontal ou integração vertical em algum desses elos, a prática recente (confirmada pelo relatório do DEE) indica atenção antitruste também direcionada aos efeitos de portfólio (advindos de complementariedades e conglomeramento de atividades), especialmente em sua capacidade de amplificar e reforçar os efeitos das concentrações horizontais ou integrações verticais individualmente consideradas. As análises recentes mais detalhadas, e os remédios adotados em alguns desses casos, apontam claramente para essa preocupação das autoridades com spill-overs das complementariedades de portfólio, notadamente em sua capacidade de aumentar barreiras a entrada (por potencialmente demandar entrada integrada e atuação simultânea em vários mercados) e de reduzir a capacidade de concorrentes igualmente eficientes oferecerem soluções integradas ou pacotes competitivos (com potencial alavancagem poder econômico de um mercado a outro).

O processo de inovação tecnológica segue em curso, e o DEE aponta a tendência de novas complementariedades surgirem, envolvendo tecnologias digitais e agricultura de precisão, que poderão trazer os elos de fertilizantes e máquinas agrícolas para soluções integradas mais amplas, assim como tornar mais porosa a fronteira entre esses mercados. Plataformas digitais aplicadas à agricultura poderão ser o núcleo de novos modelos de negócio baseados em pacotes mais integrados, capazes de unir ainda mais as soluções disponíveis nesses diversos mercados complementares. Preocupações com aquisições de start-ups inovadoras no segmento agrícola (agtechs) por agentes incumbentes devem ser uma primeira vertente em que essa atenção antitruste poderá se materializar. A segunda deverá ser a continuidade de avaliação dos efeitos portfólio e de conglomeramento, em particular no que possam amplificar os efeitos concorrenciais verificados em cada mercado individualmente considerado. 

O DEE ainda aponta para a tendência de se aprofundar a colaboração internacional entre autoridades concorrenciais. Essa tendência serve tanto para aperfeiçoar as análises quanto para a composição de remédios harmônicos quando sua imposição seja necessária, sem desconsiderar que remédios globais poderão demandar  suplementação com remédios locais, para tratar questões antitruste específicas de determinadas jurisdições.


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Crédito da imagem: Shutterstock