Patentes e inovação: oportunidades para as mulheres e perspectivas para o desenvolvimento tecnológico
A tímida participação das mulheres no sistema de propriedade industrial, e, em particular, no contexto das patentes, é um fenômeno amplamente reconhecido, apesar de as mulheres corresponderem a quase metade da população mundial. Dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI)1 indicam que a disparidade de gênero no âmbito da proteção patentária, no ritmo atual, seria equilibrada na América Latina apenas em 2068.
São várias as razões para essa sub-representação das mulheres, e elas envolvem desde a falta de incentivos até barreiras culturais e estruturais dentro das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês), campos tradicionalmente dominados por homens. Em contrapartida, a crescente conscientização sobre a importância da diversidade e da inclusão tem impulsionado a ascensão de mulheres a cargos de liderança em startups e em outras iniciativas empreendedoras, ampliando sua participação em processos criativos.
Estudos indicam que equipes diversas têm um desempenho superior em aspectos como criatividade, resolução de problemas e desenvolvimento de soluções inovadoras. A diversidade traz para o processo de invenção novas perspectivas e abordagens que podem resultar em produtos e tecnologias mais inclusivos e com um impacto social mais abrangente.
Pesquisa conduzida por uma grande empresa de consultoria2 revelou que companhias com maior equilíbrio de gênero têm 25% mais chances de alcançar resultados financeiros superiores quando comparadas com as menos diversas. A mesma lógica é aplicável ao campo da inovação, revelando oportunidades para acelerarmos o avanço tecnológico e expandirmos o alcance das invenções através da maior participação feminina no ecossistema de inovação.
Algumas medidas podem ser adotadas nesse sentido:
Educação: incentivar meninas e mulheres a se envolverem com as áreas de STEM, através de mentoria, recursos e apoio ao longo de sua jornada educacional e profissional.
Incentivos à inovação: implementar programas de financiamento e bolsas de pesquisa direcionadas a mulheres.
Exposição: promover a visibilidade de mulheres inventoras e suas patentes, criando espaços de destaque em eventos e plataformas especializadas.
No que se refere à valorização de conquistas inventivas de mulheres, citamos a Dra. Katlin Karikó, cientista húngara que desempenhou um papel crucial no desenvolvimento das vacinas de RNA mensageiro (mRNA) contra a Covid-19. Não só tal desenvolvimento foi patenteado, como a Dra. Katlin foi laureada com um Prêmio Nobel em 2023, destacando o impacto da inovação feminina no cenário global.
Outra pesquisa transformadora liderada por mulheres foi aquela sobre edição gênica. As Dras. Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier, ganhadoras do Prêmio Nobel de Química em 2020, desenvolveram a plataforma de edição gênica CRISPR-Cas9, que revolucionou a biotecnologia ao permitir a modificação precisa do DNA. Esta tecnologia é aplicada em diversas pesquisas para o tratamento de doenças genéticas, na agricultura, para desenvolver culturas mais resistentes, e em estudos sobre terapias personalizadas.
No Brasil, mesmo com as particularidades da legislação patentária para invenções no campo da biotecnologia, este desenvolvimento obteve a Carta Patente BR112014029441-0 em 2022, e o país aparece como o 9º mercado onde os desenvolvedores de tecnologias associadas a CRISPR depositam pedidos de patente.3
Incentivar uma maior participação das mulheres na inovação é uma estratégia inteligente para acelerar o progresso tecnológico e enfrentar os desafios globais. O aumento de 100% no número de pedidos de patentes no Brasil com a participação de pelo menos uma mulher, registrado entre 2017 e 2022, aponta para um futuro mais equitativo e sustentável.
>>> Este conteúdo faz parte da BMA Review #86. Clique aqui e leia outros artigos.
NOTAS
1. The Global Gender Gap in Innovation and Creativity – An International Comparison of the Gender Gap in Global Patenting over Two Decades – WIPO Development Studies 2023.
2. McKinsey & Company. “Diversity Matters: por que empresas que adotam a diversidade são mais saudáveis, felizes e rentáveis”. América Latina, jun. 2020.
3. Radar Tecnológico INPI. “Edição gênica: mapeamento de patentes associadas a tecnologias CRISPR e suas aplicações na agricultura e pecuária”, 2024.